As Mulheres no Evangelho

 

JESUS VISITA AS IRMÃS MARTA E MARIA

“Enquanto caminhava, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se e falou: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!” O senhor, porém, respondeu: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” – (Lucas cap. 10, ver. 38 a 42).

A MULHER HEMORROÍSSA

Grande multidão o seguia, comprimindo-o. Certa mulher, que havia doze anos tinha uma hemorragia, e que havia padecido muito à mão de vários médicos, e despendido tudo o que tinha, sem contudo nada aproveitar, pelo contrário, indo a pior, ouvindo falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na sua veste. Dizia ela: Se tão somente tocar nas suas vestes, sararei. Imediatamente se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no seu corpo estar curada do flagelo. Jesus, conhecendo que de si mesmo saíra poder voltou-se na multidão, e perguntou: Quem tocou nas minhas vestes? Responderam-lhe os discípulos: Vês que a multidão te aperta, e dizes: Quem me tocou? Porém ele olhava em redor, para ver a que isto fizera. Então a mulher, que sabia o que lhe tinha acontecido, temendo e tremendo, aproximou-se, prostrou-se diante dele, e declarou-lhe toda a verdade. Ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz, e sê sarada deste teu mal. MARCOS 5:24-34
Sua história foi uma história de sofrimento e de provações. Desde a adolescência, acostumou-se com as dores frequentes que sentia e os incômodos de sua saúde frágil.
Sob a tutela de abnegada dama, ela soube enfrentar dolorosamente a falta da mãe, que perdera a vida anos atrás, deixando-a órfã. O pai, homem trabalhador e honesto, dedicava-se ao seu ofício, provendo assim o sustento para o lar. Após o luto e a viuvez, contraíra novas núpcias, e a filha fora adotada pela madrasta como se fora fruto de seu próprio ventre.
Desde cedo aquela jovem aprendeu o manejo do tear, fabricando belas peças de fazenda. Do linho puro, tecia mantos formosos, que vendia para auxiliar a família quanto pudesse.
Em determinada ocasião, o pai terminou por perder a vida, dando assim vitória à doença que o consumiu durante longo período. Restava-lhe agora somente as bênçãos de um casamento, que desejava fosse feliz.
Donzela, viu seus sonhos se esvaírem quando a saúde tornou-se-lhe mais delicada. Estranha hemorragia se manifestou, requerendo maiores cuidados por parte dela e da madrasta. Não podia mais trabalhar como antes, o que comprometeu severamente o orçamento doméstico. Viram-se então obrigadas a racionar os alimentos e se adaptar a uma vida ainda mais austera do que o cotidiano simples e despojado de requintes que já conheciam. Os tempos eram difíceis, e a falta de uma presença masculina, paternal, tornava as coisas bastante delicadas, em especial na sociedade machista e patriarcal em que viviam. A jovem moça era obrigada a sacrifícios extremos.
A estranha hemorragia transformou-se também em motivo de angústia, de pesar. De acordo com as leis religiosas vigentes, que pautavam toda a convivência social, a mulher com fluxo menstrual era tida como imunda. O homem era proibido até mesmo de tocar qualquer mulher em tais condições. No caso daquela jovem, a situação era ainda mais grave, pois seu fluxo de sangue era ininterrupto. O tempo havia transcorrido vagarosamente, e o sangue lhe fluía mais constante, acompanhado de dor.
O ser humano, por natureza, teme o desconhecido.
Num misto de fascinação que encanta e horror que amedronta, o desconhecido geralmente expõe a fragilidade dos conceitos humanos. Distante ou sem conexão estreita com as leis divinas, apavora-o a possibilidade de entrar em contato com o que lhe demova a aparente segurança e o faça confrontar-se com a realidade nua das verdades espirituais. A simples menção da incógnita assusta, causa temor, pavor e, dependendo do nível de desequilíbrio íntimo, pânico. Reações de violência e brutalidade são esperadas por parte do ser na infância do espírito. Advêm daí as atitudes de preconceito, discriminação e segregação, como se, banindo o desconhecido ou o diferente, o homem pudesse eximir-se dele. Vítimas das mais diversas enfermidades físicas ou psíquicas, nas mais variadas épocas e culturas, experimentaram a rejeição e o repúdio social e enfrentaram a reclusão em inúmeras circunstâncias.
Por interferência de amigos, a jovem hemorroíssa procurou por longo tempo os facultativos da época, não logrando resultados. Médicos foram consultados, porém a ciência ou a sabedoria de seu tempo não detinha condições de solucionar esse mal.
Andou a companheira desafortunada por várias cidades e vilas: se houvesse a informação da presença de algum médico ou curandeiro aqui ou ali, onde quer que fosse, lá estava a jovem. Tudo em vão. Os anos passaram, e as tentativas frustradas de socorro e tratamento esgotaram o viço de sua juventude, restando-lhe apenas a opção da convivência pacífica com a enfermidade e o seu resguardo na fé viva que alimentava dentro do peito.
Mesmo ante tantos fracassos na tentativa de curar-se, não desanimava. Sua vida transformara-se num exemplo de perseverança e fé viva. Ainda abatida, a mulher não se entregava à enfermidade nem deixava de trabalhar para seu sustento.
Passou pela vida com o desejo mal contido de ser mãe. Seus sonhos de menina-moça e, agora, de mulher não poderiam ainda ser realizados. A hemorragia persistia por longos anos, como a esgotar-lhe lentamente as forças vitais, provando-lhe a resistência espiritual. Diante da provação dolorosa, respondia como podia com a sua dedicação ao trabalho e, agora, com o cuidado extremado com a sua segunda mãe, para a qual soavam os lamentos próprios do inverno da existência.
Não desistiria jamais. Lutaria quanto pudesse; faria a sua parte. Embora por tantos e longos anos não encontrasse cura através da medicina humana, alimentava a ideia de que Deus colocaria diante dela o facultativo de que necessitasse para debelar o seu mal.
O exemplo é de persistência, de perseverança, de esperança. Quando muitos se entregavam ao desespero e ao desânimo, diante das moléstias consideradas incuráveis, ela, mesmo ciente das dificuldades da época, insistia na procura pela solução para os seus males. Desejava ardentemente a superação de si mesma e de seus próprios limites. Não se entregou à depressão ou ao azedume. Trabalhou.
Talvez, desconhecedora ainda de certas leis da vida, da reencarnação, não atinava com a origem distante de seus males. Quem sabe num passado distante não atentara contra a vida própria ou a alheia, na tentativa de aborto ou no desprezo pela vida?
São tantas as possibilidades que não convém, na hora da dor, procurar pelos motivos do mal. Isso só trará mais contrariedades. O certo é que esta mulher valorosa transformou sua vida num exemplo dignificante de trabalho e de fé no futuro.
O processo que desencadeou a sua enfermidade, no passado longínquo, perdia importância diante de sua fé num futuro em que sua alma brilharia, graças à fé viva que trazia consigo.
Foi assim que 12 anos se passaram, e aquela sombra de mulher arrastava-se pelas ruas de sua cidade, na qual ficou conhecida como a Dama da Fé.
Ouvira falar de um certo Jesus da Galiléia, filho de José, e que Ele, o galileu, era um profeta, um enviado de Deus.
O ânimo aumentou-lhe, e a fé, de uma simples chama bruxuleante, transformou-se numa claridade imorredoura, ante as novas perspectivas que se abriam diante da existência.
Já não tinha a força da mocidade, e a fraqueza generalizada dominava seu organismo físico, minando-lhe as derradeiras reservas de vitalidade. Um dos médicos consultados não aconselhava maiores esforços, pois, segundo o conhecimento que detinham, não lhe restava muito tempo de vida.
Como enfrentar a estranha situação? E esse Jesus do qual tanto falavam? Será que não estará nele a sua esperança de melhores dias? Orou fervorosamente ao Deus de seu país. Confiava que, talvez, somente de ouvir as palavras do rabi encontraria forças para suportar o momento crítico que se avizinhava. Já estava quase desfalecendo.
No entanto, à medida que o corpo fragilizava-se, aumentava-lhe a confiança no futuro e a certeza de que fios invisíveis a conduziam, orientando o seu destino. Andava pensativa pelas ruas quando ouviu um murmúrio que aumentava lentamente. Ao longe avistou uma multidão que se aproximava. O coração palpitava, e parecia que estranha emoção a dominava. Era tarde. A tarde da história sofrida da humanidade .
A dor muitas vezes atua como grande impulso à evolução dos seres. Desejando a felicidade plena, o homem empreende recursos e luta para debelar a dor, alargando os horizontes da consciência.
Aproximava-se cada vez mais a multidão que envolvia o rabi por todos os lados. Num ímpeto de fé, a mulher arroja-se em meio ao povo, tentando abrir passagem para atingir o Mestre. Seu caminho é obstruído, no entanto, pela gente que procurava beneficiar-se com a presença de Jesus. Não conseguia romper o cerco de pessoas que acompanhavam o Senhor.
Sua fé, porém, alcançava forças desconhecidas pela multidão. O coração daquele que crê caminha bem mais longe que seus pés.
Novo impulso empreende a mulher hemorroíssa rumo a seu objetivo. “Não sou merecedora de seu olhar” pensava ela. “Contudo, sei que dele emana poder, força curadora.” Neste momento a aura do Mestre expande-se, e seu pensamento entra em sintonia com o pensamento da mulher enferma. Ele continua seus passos sem ignorar-lhe as necessidades.
Ela aproxima-se cansada, aflita, cheia de esperanças e movida por intensa fé. Num dado momento, a multidão dá-lhe passagem, e ela tenta a todo custo chegar até o profeta galileu.
Apenas um minuto a separa de seu objetivo. A hemorragia, neste exato instante, parecia aumentar em intensidade; esvaindo-se em sangue, ela se lança em direção ao Mestre, ajuntando todo o resto das forças que possuía num esforço hercúleo. Consegue apenas tocar-lhe as vestes.
É o suficiente. Imediatamente a virtude do Senhor é canalizada até ela, e uma onda de vitalidade percorre-lhe o ser.
O magnetismo divino reestrutura órgãos e células e reequilibra corpo e alma da atormentada criatura. Ela para por um momento, pensativa. Apenas por um momento. Volta para dentro de si e faz silêncio em sua alma.
O Mestre, detendo seus passos, confabula com os seguidores mais próximos:
– Sinto que alguém me tocou.
– Mas. Senhor, são tantos os que o tocam em meio a esta multidão … – respondem os discípulos, sem compreender as palavras do Mestre.
– Sim, mas alguém tocou-me de modo especial.
Sinto que de mim saiu virtude.
Jesus, voltando-se para a mulher, dirige a ela seu olhar.
Neste momento parece haver se realizado o casamento do Céu com a Terra. Ninguém resiste ao doce e meigo olhar de Jesus.
Naquele olhar, o Nazareno devassa-lhe a alma e esquadrinha-lhe o coração. É a hora da verdade. A verdade que jamais poderia ser declarada; em vez disso, vivida.
– Mulher, a tua fé te salvou !” – são as palavras pronunciadas pelo Senhor.
Aquele fora o momento da redenção para aquela alma valorosa. Sua vida ilibada, sua fé ardorosa e sua conformação com a vontade do Eterno a faziam merecedora das bênçãos divinas. Onde a medicina humana falhara, porque limitada, manifestava todo o seu poder a ciência divina, e o embaixador das estrelas, o divino médico das almas, mostrava-se soberano aos problemas humanos.”A hemorragia cedera ante a atuação do amor. A prova da mulher cessara, e ali, no encontro com Jesus, iniciara uma nova etapa para aquela alma que provara a sua fé, cheia de esperança, na fonte divina de todo o bem. Era a vitória da luz.
O tempo escoou-se vagarosamente. O cenário agora era uma pequena cidade, uma aldeia dos samaritanos. Via-se de longe um burburinho, algumas pessoas que envolviam uma figura singela de uma madona. O lugar, um pequeno albergue erguido à beira de um riacho, com pequeno campo de flores que vicejavam formosas, como expressão da bondade soberana.
A mulher valorosa fundara um abrigo que amparasse os órfãos de qualquer procedência. Em nome do amor, ela ministrava os conceitos de vida e luz para aquelas almas em provação. O encontro com Jesus, anos antes, transformara sua vida de tal maneira que a força do amor contida em seu ser explodiu em obras de caridade e benemerência, por onde quer que passasse.
Ninguém permanece o mesmo depois de encontrar-se com Jesus. Todos que ali passavam, moços, velhos e crianças, encontravam sempre um prato de sopa e uma réstia de pão para aplacar a fome. Ensinando as donzelas a manejar o tear, provia recursos para a manutenção do lar dos necessitados. Ali, à sombra de formosa árvore, ouviam da boca da nobre senhora a velha e feliz história de um homem chamado Jesus.

 

JOANNA DE CUSA

Entre a multidão que invariavelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cusa, intendente de Ântipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores. Joana possuía verdadeira fé; contudo, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contacto com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.

Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:

– Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. eviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de suas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.
Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou:
– Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?
O Cristo sorriu serenamente e retrucou:
– Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias – continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras -, por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões: transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!… Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!… Joana de Cusa experimentava um brando alívio no coração.

Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as últimas palavras:

– Vai, filha!… Sê fiel!

*

      Desde esse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cusa experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus. Como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta. Procurou esquecer todas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia. Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Ântipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou esclarecê-las, alegando que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de modesta carpintaria e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.

Cheia de alegria sincera, a viúva de Cusa esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, quando a neve das experiências do mundo lhe alvejou os primeiros anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.

No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.

Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.

– Abjura!… – exclama um executor das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio.

A antiga discípula do Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas:

– “Repudia a Jesus, minha mãe!… Não vês que nos perdemos?! Abjura!.. . por mim, que sou teu filho!…

Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.

– Abjura!… Abjura!

Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras… Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: – “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cusa contemplou a primeira vítima ensangüentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:

– Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitorias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!

A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos lhe incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. Joana de Cusa contemplou com serenidade a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:

– O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? – perguntou um dos verdugos.

A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar:

– Não apenas a morrer, mas também a vos amar!…

Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível: tem bom ânimo!… Joana Eu aqui estou!…

(do Livro Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier)

MARIA DE MAGDALA

Maria de Magdala ouvira as pregações do Evangelho do Reino, não longe da Vila principesca onde vivia entregue a prazeres, em companhia de patrícios romanos, e tomara- -se de admiração profunda pelo Messias.
Que novo amor era aquele apregoado aos pescadores singelos por lábios tão divinos? Até ali, caminhara ela sobre as rosas rubras do desejo, embriagando-se com o vinho de condenáveis alegrias. No entanto, seu coração estava sequioso e em desalento. Jovem e formosa, emancipara-se dos preconceitos férreos de sua raça; sua beleza lhe escravizara aos caprichos de mulher os mais ardentes admiradores; mas seu espírito tinha fome de amor. O profeta nazareno havia plantado em sua alma novos pensamentos Depois que lhe ouvira a palavra, observou que as facilidades da vida lhe traziam agora um tédio mortal ao espírito sensível. As músicas voluptuosas não encontravam eco em seu íntimo, os enfeites romanos de sua habitação se tornaram áridos e tristes. Maria chorou longamente, embora não compreendesse ainda o que pleiteava o profeta desconhecido. Entretanto, seu convite amoroso parecia ressoar-lhe nas fibras mais sensíveis de mulher. Jesus chamava os homens para uma vida nova.
Decorrida uma noite de grandes meditações e antes do famoso banquete em Naim, onde ela ungiria publica- mente os pés de Jesus com os bálsamos perfumados de seu afeto, notou-se que uma barca tranquila conduzia a pecadora a Cafarnaum. Dispusera-se a procurar o Messias, após muitas hesitações. Como a receberia o Senhor, na residência de Simão? Seus conterrâneos nunca lhe haviam perdoado o abandono do lar e a vida de aventuras. Para todos, era ela a mulher perdida que teria de encontrar a lapidação na praça pública. Sua consciência, porém, lhe pedia que fosse. Jesus tratava a multidão com especial carinho. Jamais lhe observara qualquer expressão de desprezo para com as numerosas mulheres de vida equivoca que o cercavam. Além disso, sentia-se seduzida pela sua generosidade. Se possível, desejaria trabalhar na execução de suas idéias puras e redentoras. Propunha-se a amar, como Jesus amava, sentir com os seus sentimentos sublimes. Se necessário, saberia renunciar a tudo. Que lhe valiam as jóias, as flores raras, os banquetes suntuosos, se, ao fim de tudo isso, conservava a sua sede de amor?!…
Envolvida por esses pensamentos profundos, Maria de Magdala penetrou o umbral da humilde residência de Simão Pedro, onde Jesus parecia esperá-la, tal a bondade com que a recebeu num grande sorriso. A recém-chegada sentou-se com indefinível emoção a estrangular-lhe o peito.
*
Vencendo, porém, as suas mais fortes impressões, assim falou, em voz súplice, feitas as primeiras saudações:
Senhor, ouvi a vossa palavra consoladora e venho ao vosso encontro!… Tendes a clarividência do céu e podeis adivinhar como tenho vivido! Sou uma filha do pecado. Todos me condenam. Entretanto, Mestre, observai como tenho sede do verdadeiro amor!… Minha existência, como todos os prazeres, tem sido estéril e amargurada…
As primeiras lágrimas lhe borbulharam dos olhos, enquanto Jesus a contemplava, com bondade infinita. Ela, porém, continuou:
— Ouvi o vosso amoroso convite ao Evangelho! Desejava ser das vossas ovelhas; mas, será que Deus me aceitaria?
O Profeta nazareno fitou-a, enternecido, Sondando as profundezas de seu pensamento, e respondeu, bondoso:
— Maria, levanta os olhos para o céu e regozija-te no caminho, porque escutaste a Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias! Acaso, poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde, então, o amor de Nosso Pai? Nunca viste a primavera dar flores sobre uma casa em ruínas? As ruínas são as criaturas humanas; porém, as flores são as esperanças em Deus. Sobre todas as falências e desventuras próprias do homem, as bênçãos paternais de Deus descem e chamam. Sentes hoje esse novo Sol a iluminar-te O destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos pecados.
A pecadora de Magdala escutava o Mestre, bebendo-lhe as palavras. Homem algum havia falado assim à sua alma incompreendida. Os mais levianos lhe pervertiam as boas inclinações, os aparentemente virtuosos a desprezavam sem piedade. Engolfada em pensamentos confortadores e ouvindo as referências de Jesus ao amor, Maria acentuou, levemente:
— No entanto, Senhor, tenho amado e tenho sede de amor!…
— Sim – redarguíu Jesus -, tua sede é real. O mundo viciou todas as fontes de redenção e é imprescindível compreenda que em suas sendas a virtude tem de marchar por uma porta muito estreita. Geralmente, um homem deseja ser bom como os outros, ou honesto como os demais, olvidando que o caminho onde todos passam é de fácil acesso e de marcha sem edificações. A virtude no mundo foi transformada na porta larga da conveniência própria. Há os que amam os que lhes pertencem ao círculo pessoal, os que são sinceros com os seus amigos, os que defendem seus familiares, os que adoram os deuses do favor. O que verdadeiramente ama, porém, conhece a renúncia suprema a todos os bens do mundo e vive feliz, na sua senda de trabalhos para o difícil acesso às luzes da redenção. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre, sem amargura e sem ambição, com os júbilos do sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para a vida suprema…
Maria o escutava, embevecida. Ansiosa por compreender inteiramente aqueles ensinos novos, interrogou atenciosamente:
— Só o amor pelo sacrifício poderá saciar a sede do coração?
Jesus teve um gesto afirmativo e continuou:
— Somente o sacrifício contém o divino mistério da vida. Viver bem é saber imolar-se. Acreditas que o mundo pudesse manter o equilíbrio próprio tão-só com os caprichos antagônicos e por vezes criminosos dos que se elevam à galeria dos triunfadores? Toda luz humana vem do coração experiente e brando dos que foram sacrificados. Um guerreiro coberto de louros ergue os seus gritos de vitória sobre os cadáveres que juncam o chão; mas, apenas os que tombaram fazem bastante silêncio, para que se ouça no mundo a mensagem de Deus. O primeiro pode fazer a experiência para um dia; os segundos constroem a estrada definitiva na eternidade.
Na tua condição de mulher, já pensaste no que seria o mundo sem as mães exterminadas no silêncio e no sacrifício Não são elas as cultivadoras do jardim da vida, onde os homens travam a batalha?!… Muitas vezes, o campo enflorescido se cobre de lama e sangue; entretanto, na sua tarefa silenciosa, os corações maternais não desesperam e reedificam o jardim da vida, imitando a Providência Divina, que espalha sobre um cemitério os lírios perfumados de seu amor!…
Maria de Magdala, ouvindo aquelas advertências, começou a chorar, a sentir no íntimo o deserto da mulher sem filhos. Por fim, exclamou:
— Desgraçada de mim, Senhor, que não poderei ser mãe!…
Então, atraindo-a brandamente a si, o Mestre acrescentou:
— E qual das mães será maior aos olhos de Deus? A que se devotou somente aos filhos de sua carne, ou a que se consagrou, pelo espírito, aos filhos das outras mães?
Aquela interrogação pareceu despertá-la para meditações mais profundas. Maria sentiu-se amparada por uma energia interior diferente, que até então desconhecera. A palavra de Jesus lhe honrava o espírito; Convidava-a a ser mãe de seus irmãos em humanidade, aquinhoando-os com os bens supremos das mais elevadas virtudes da vida. Experimentando radiosa felicidade em seu mundo íntimo, contemplou o Messias com os olhos nevoados de lágrimas e, no êxtase de sua imensa alegria, murmurou comovidamente:
— Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor celestial que me ensinastes!… Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento procurarei os infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração, estarei com aleijados e leprosos…
Nesse instante, Simão Pedro passou pelo aposento, demandando O interior, e a observou com certa estranheza. A convertida de Magdala lhe sentiu o olhar glacial, quase denotando desprezo, e, já receosa de um dia perder a convivência do Mestre, perguntou com interesse:
— Senhor, quando partirdes deste mundo, como ficaremos?
Jesus compreendeu o motivo e o alcance de sua palavra e esclareceu:
— Certamente que partirei, mas estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro, com o infinito de suas perspectivas, é necessário que cada um tome sua cruz, em busca da porta estreita da redenção, colocando, acima de tudo, a fidelidade a Deus e, em segundo lugar, a perfeita confiança em si mesmo.
Observando que Maria, ainda opressa pelo olhar estranho de Simão Pedro, se preparava a regressar, o Mestre lhe sorriu com bondade e disse:
— Vai, Maria!… Sacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil a jornada, estreita a porta; mas, a fé remove os obstáculos… Nada temas: é preciso crer somente!
*
Mais tarde, depois de sua gloriosa visão do Cristo ressuscitado, Maria de Magdala voltou de Jerusalém para a Galiléia, seguindo os passos dos companheiros queridos.
A mensagem da ressurreição espalhara uma alegria infinita.
Após algum tempo, quando os apóstolos e seguidores do Messias procuravam reviver o passado junto ao Tiberíades, os discípulos diretos do Senhor abandonaram a região, a serviço da Boa Nova. Ao disporem-se OS dois últimos companheiros a partir em definitivo para Jerusalém Maria de Magdala, temendo a solidão da saudade, rogou fervorosamente lhe permitissem acompanhá-los à cidade dos profetas; ambos, no entanto, se negaram a anuir aos seus desejos. Temiam-lhe o pretérito de pecadora, não confiavam em seu coração de mulher. Maria compreendeu, mas lembrou-se do Mestre e resignou-se.
Humilde e sozinha, resistiu a todas as propostas condenáveis que a solicitavam para uma nova queda de sentimentos. Sem recursos para viver, trabalhou pela própria manutenção, em Magdala e Dalmanuta. Foi forte nas horas mais ásperas, alegre nos sofrimentos mais escabrosos, fiel a Deus nos instantes escuros e pungentes. De vez em quando, ia às sinagogas, desejosa de cultivar a lição de Jesus; mas as aldeias da Galiléia estavam novamente subjugadas pela intransigência do judaísmo. Ela compreendeu que palmilhava agora o caminho estreito, onde ia só, com a sua confiança em Jesus. Por vezes, chorava de saudade, quando passeava no silêncio da praia, recordando a presença do Messias. As aves do lago, ao crepúsculo, vinham pousar, como outrora, nas alcaparreiras mais próximas; o horizonte oferecia, como sempre, o seu banquete de luz. Ela contemplava as ondas mansas e lhes confiava suas meditações.
Certo dia, um grupo de leprosos veio a Dalmanuta. Procediam da lduméia aqueles infelizes, cansados e tristes, em supremo abandono. Perguntavam por Jesus Nazareno, mas todas as portas se lhes fechavam. Maria foi ter com eles e, sentindo-se isolada, com amplo direito de empregar a sua liberdade, reuniu-os sob as árvores da praia e lhes transmitiu as palavras de Jesus, enchendo-lhes os corações das claridades do Evangelho. As autoridades locais, entretanto, ordenaram a expulsão imediata dos enfermos. A grande convertida percebeu tamanha alegria no semblante dos infortunados, em face de suas fraternas revelações a respeito das promessas do Senhor, que se pôs em marcha para Jerusalém, na companhia deles. Todo o grupo passou a noite ao relento, mas sentia-se que os júbilos do Reino de Deus agora os dominavam. Todos se interessavam pelas descrições de Maria, devoravam-lhe as exortações, contagiados de sua alegria e de sua fé. Chegados à cidade, foram conduzidos ao vale dos leprosos, que ficava distante, onde Madalena penetrou com espontaneidade de coração. Seu espírito recordava as lições do Messias e uma coragem indefinível se assenhoreara de sua alma.
Dali em diante, todas as tardes, a mensageira do Evangelho reunia a turba de seus novos amigos e lhes dizia o ensinamento de Jesus. Rostos ulcerados enchiam–se de alegria, olhos sombrios e tristes tocavam-se de nova luz. Maria lhes explicava que Jesus havia exemplificado o bem até à morte, ensinando que todos os seus discípulos deviam ter bom ânimo para vencer o mundo. Os agonizantes arrastavam-se até junto dela e lhe beijavam a túnica singela. A filha de Magdala, lembrando o amor do Mestre, tomava-os em seus braços fraternos e carinhosos.
Em breve tempo, sua epiderme apresentava, igualmente, manchas violáceas e tristes. Ela compreendeu a sua nova situação e recordou a recomendação do Messias de que somente sabiam viver os que sabiam imolar-se. E experimentou grande gozo, por haver levado aos seus companheiros de dor uma migalha de esperança. Desde a sua chegada, em todo o vale se falava daquele Reino de Deus que a criatura devia edificar no próprio coração. Os moribundos esperavam a morte com um sorriso ditoso nos lábios, os que a lepra deformara ou abatera guardavam bom ânimo nas fibras mais sensíveis.
Sentindo-se ao termo de sua tarefa meritória, Maria de Magdala desejou rever antigas afeições de seu círculo pessoal, que se encontravam em Éfeso. Lá estavam João e Maria, além de outros companheiros dos júbilos cristãos. Adivinhava que as suas últimas dores terrestres vinham muito próximas; então, deliberou pôr em prática seu humilde desejo.
Nas despedidas, seus companheiros de infortúnio material vinham suplicar-lhe os derradeiros conselhos e recordações. Envolvendo-os no seu carinho, a emissária do Evangelho lhes dizia apenas:
— Jesus deseja intensamente que nos amemos uns aos outros e que participemos de suas divinas esperanças, na mais extrema lealdade a Deus!…
Dentre aqueles doentes, os que ainda se equilibravam pelos caminhos lhe traziam o fruto das esmolas escassas e as crianças abandonadas vinham beijar-lhe as mãos.
Na fortaleza de sua fé, a ex-pecadora abandonou o vale, através das estradas ásperas, afastando-se de misérrimas choupanas. A peregrinação foi-lhe difícil e angustiosa. Para satisfazer aos seus intentos recorreu à caridade, sofreu penosas humilhações, submeteu-se ao sacrifício. Observando as feridas pustulentas que substituíam sua antiga beleza, alegrava-se em reconhecer que seu espírito não tinha motivos para lamentações. Jesus a esperava e sua alma era fiel.
Realizada a sua aspiração, por entre dificuldades infinitas, Maria achou-se, um dia, às portas da cidade; mas, invencível abatimento lhe dominava os centros de força física. No justo momento de suas efusões afetuosas, quando o casario de Éfeso se lhe desdobrava à vista, seu corpo alquebrado negou-se a caminhar. Modesta família de Cristãos do subúrbio recolheu-a a uma tenda humilde, caridosamente Madalena pôde ainda rever amizades bem caras, consoante seus desejos. Entretanto, por largos dias de padecimentos debateu-se entre a vida e a morte.
Uma noite, atingiram o auge as profundas dores que sentia. Sua alma estava iluminada por brandas reminiscências e, não obstante seus olhos se acharem selados pelas pálpebras intumescidas, via com os olhos da imaginação o lago querido, os companheiros de fé, o Mestre bem-amado. Seu espírito parecia transpor as fronteiras da eternidade radiosa. De minuto a minuto, ouvia-se-lhe um gemido surdo, enquanto os irmãos de crença lhe rodeavam o leito de dor, com as preces sinceras de seus corações amigos e desvelados.
Em dado instante, observou-se que seu peito não mais arfava. Maria no entanto, experimentava consoladora sensação de alívio. Sentia-se sob as árvores de Cafarnaum e esperava o Messias. As aves cantavam nos ramos próximos e as ondas sussurrantes vinham beijar-lhe OS pés. Foi quando viu Jesus aproximar-se, mais belo que nunca. Seu olhar tinha o reflexo do céu e o semblante trazia um júbilo indefinível. O Mestre estendeu-lhe as mãos e ela se prosternou, exclamando, como antigamente:
— Senhor!…
Jesus recolheu-a brandamente nos braços e murmurou:
– Maria, já passaste a porta estreita!… Amaste muito! Vem! Eu te espero aqui!

 

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